No livro Tratado Geral Sobre a Fofoca, José Ângelo Gaiarsa analisa a estrutura do funcionamento social através do impacto de uma grande peste emocional, a fofoca. Aquilo que as pessoas inibidas, moralistas, reprimidas fazem contra todos os que se mexem, vivem e fazem coisas.
Têm-se vontades que os outros dizem não ter, não compreender, nem aceitar – principalmente em matéria de amor, sexo e auto-estima. Inclusive caprichos inofensivos que não são realizados porque seriam tidos como ridículos. Então são contidos. Só se mostra e realiza o que convém, é permitido e bem visto. A outra metade fica escondida, trancada. O problema é que o que é escondido não desaparece, insiste, ficando cada vez mais dolorido ocultar. “O que fazer com o porão cada vez mais cheio de coisas estranhas que continuam crescendo?” Fofoca, claro.
Os fofoqueiros são policiais do comportamento alheio. Muito conveniente. Viver vigiando a si mesmo a fim de agir bem é cansativo, exige alerta permanente. Vigiar e punir o outro é bem mais fácil. A vizinha honesta vigia a vizinha desonesta, pois assim se considera superior, virtuosa, a própria zeladora dos valores morais. Em vez de ficar policiando-se o dia todo, angustiada frente aos próprios desejos e fantasias, passa a espionar os vizinhos. Dessa forma livra-se de si mesma e carrega o título de glória.
Há duas espécies fundamentais de fofoqueiro: os orgulhosos, que desprezam a pessoa que estão criticando. Como se o ato realizado fosse uma vergonha, uma humilhação. A esta espécie de fofocador se pode perguntar: se o outro é tão desprezível, “Por que você se incomoda com ele?” A segunda classe é a dos invejosos. Ao fazer a fofoca, mostram no olhar e no rosto espanto e perplexidade. A sua crítica tem um tom indisfarçável de admiração. Estes são mais honestos, sabem fingir menos, porém a expressão dos dois diz a mesma coisa: “Como é que esse sujeito tem coragem de fazer isso?”
Entretanto só quem viveu o fato sabe como ele foi. Quem ouviu falar ou surpreendeu um pedaço da história não sabe o que aconteceu. Simplesmente imagina, supõe, adivinha, usando sua própria história emocional para completar o que não sabe construída à custa de medo e frustração particular. A quantidade de fofoca que existe no mundo e em cada pessoa é exatamente igual à quantidade de desejos humanos não realizados.

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