sábado, 31 de julho de 2010

'NÃO MUDE!'


É muito doloroso mudar. Primeiro porque na metamorfose, uma parte essencial do ser deixa de existir; um modo de ser quem se é precisa entrar em colapso para dar oportunidade a um novo indivíduo se manifestar.  Segundo porque se unem contra a renovação aqueles que, de uma forma ou de outra, o conhecem, testemunham sua biografia e zelam para que ela seja preservada, isto significa enfrentar a resistência de todo mundo que o cerca.
O desafio inicia com a exigência de suportar a angústia que a proposta nova gera.  O sentimento de desamparo, o medo do desconhecido, a necessidade de sair da zona de conforto, encarando os próprios temores tende a ser desagradável.  Não é qualquer pessoa que se dispõe e aguenta um esforço deste tamanho, porém indispensável para a superação de si mesmo.
Engana-se quem imagina que contará com o apoio alheio ao projeto de transformar-se, mesmo que a mudança seja um desejo coletivo.  Equivoca-se o sonhador ingênuo que espera estímulo à mudança por parte de todos, por mais absurdo que pareça.  Há uma conspiração pela fixação de identidades e pelo congelamento de características; participa-se, inclusive contribui-se para a blindagem que paralisa os processos históricos.
Observa-se esta contradição nos consultórios diariamente.  O discurso que produz a procura por ajuda nem sempre se sustenta aos desafios que se sucedem.  Talvez a falta de informação induza a ilusão de que apenas a palavra de um profissional execute toda a tarefa pelo paciente.  Então quando ele percebe que não pode ser assim, que precisa aprender a construir escolhas, duvida de sua verdadeira capacidade.
 Os psicólogos estão acostumados com as resistências, se prepararam para exercer suas atividades com a presença constante de forças contrárias ao seu método de trabalho.  Sabem que elas vão se manifestar na relação com seus pacientes; esperam e alertam para possíveis crises deles com seus familiares e com amigos, porque a mera possibilidade de alteração de comportamento (real ou imaginária) de um dos membros da rede social o coloca em perigo, na medida em que interfere direta ou indiretamente na convivência entre eles.
Entretanto aqueles que persistem na tarefa de mudança confirmam categoricamente sua ousadia, conquistam a autonomia e descobrem seu legítimo valor, independente se o fazem com a ajuda de alguém ou não.  Karen Horney afirma: “A vida em si mesma é uma excelente terapeuta”.  Basta ter convicção para se entregar a um projeto no qual, muitas vezes, se é o único a acreditar.

TRATADO GERAL SOBRE A FOFOCA

         
         No livro Tratado Geral Sobre a Fofoca, José Ângelo Gaiarsa analisa a estrutura do funcionamento social através do impacto de uma grande peste emocional, a fofoca. Aquilo que as pessoas inibidas, moralistas, reprimidas fazem contra todos os que se mexem, vivem e fazem coisas.
          Têm-se vontades que os outros dizem não ter, não compreender, nem aceitar – principalmente em matéria de amor, sexo e auto-estima. Inclusive caprichos  inofensivos que não são realizados porque seriam tidos como ridículos. Então são contidos. Só se mostra e realiza o que convém, é permitido e bem visto. A outra metade fica escondida, trancada. O problema é que o que é escondido não desaparece, insiste, ficando cada vez mais dolorido ocultar. “O que fazer com o porão cada vez mais cheio de coisas estranhas que continuam crescendo?” Fofoca, claro.
Os fofoqueiros são policiais do comportamento alheio.  Muito conveniente. Viver vigiando a si mesmo a fim de agir bem é cansativo, exige alerta permanente. Vigiar e punir o outro é bem mais fácil.  A vizinha honesta vigia a vizinha desonesta, pois assim se considera superior, virtuosa, a própria zeladora dos valores morais. Em vez de ficar policiando-se o dia todo, angustiada frente aos próprios desejos e fantasias, passa a espionar os vizinhos.  Dessa forma livra-se de si mesma e carrega o título de glória.
          Há duas espécies fundamentais de fofoqueiro: os orgulhosos, que desprezam a pessoa que estão criticando. Como se o ato realizado fosse uma vergonha, uma humilhação. A esta espécie de fofocador se pode perguntar: se o outro é tão desprezível, “Por que você se incomoda com ele?” A segunda classe é a dos invejosos. Ao fazer a fofoca, mostram no olhar e no rosto espanto e perplexidade. A sua crítica tem um tom indisfarçável de admiração. Estes são mais honestos, sabem fingir menos, porém a expressão dos dois diz a mesma coisa: “Como é que esse sujeito tem coragem de fazer isso?”
          Entretanto só quem viveu o fato sabe como ele foi. Quem ouviu falar ou surpreendeu um pedaço da história não sabe o que aconteceu. Simplesmente imagina, supõe, adivinha, usando sua própria história emocional para completar o que não sabe construída à custa de medo e frustração particular.  A quantidade de fofoca que existe no mundo e em cada pessoa é exatamente igual à quantidade de desejos humanos não realizados. 

BULLYING, BRINCADEIRAS QUE MACHUCAM A ALMA




 Todos os dias, alunos no mundo inteiro sofrem com um tipo de violência que vem mascarada na forma de brincadeira: risadinhas, empurrões, fofocas, apelidos maldosos, etc. Todo mundo já testemunhou uma dessas “brincadeirinhas” ou foi vítima delas, que recebe o nome de bullying (“bully”, quer dizer brigão, tirano).  São atitudes agressivas intencionais e repetitivas com o desejo de maltratar uma pessoa e colocá-la sob tensão.
Uma criança que sofre bullying na escola tenderá a sentimentos negativos com possibilidade de tornar-se um adulto com problemas de relacionamento, tomado de um comportamento agressivo, continuar sofrendo ou começar a praticar o mesmo para tentar se defender.
Os efeitos do bullying incluem ansiedade, resistência ou mal-estar na hora de ir à escola, baixo rendimento escolar, opiniões depreciativas sobre si, roupas ou cadernos danificados, isolamento, pesadelos, pânico, agressividade, queixas orgânicas e outros. 
É uma questão social e educacional de relações de poder. Interfere na autoestima, e qualquer um com características específicas (timidez, insegurança, diferenças físicas, culturais ou raciais) tornam-se alvos facilmente.
Não são poucas as vítimas do bullying  que, por medo ou vergonha, sofrem em silêncio.  Além de haver alguns casos com desfechos trágicos, esse tipo de prática também está preocupando por atingir faixas etárias cada vez mais baixas, como crianças dos primeiros anos da escolarização.
Trata-se de uma forma de ataque perversa que extrapola os muros da escola e pode deixar seqüelas para a vida adulta.  Os autores dessa prática podem adotar comportamentos de risco, desrespeito aos professores, desinteresse pelos estudos, abuso de álcool e drogas, porte de armas, atitudes criminosas e acabar tornando-se adultos violentos.
Não existem escolas sem bullying.  Reconhece-se – os alvos, os autores e as testemunhas, sendo que estas geralmente não denunciam os autores nem defendem os alvos, ficando muitas vezes do lado do autor ou neutros. 
Para quem é vítima de algum desses tipos de humilhação, a saída é “se abrir”, ou seja, procurar ajuda, começando pelos próprios pais.  E quem tem um filho passando por esse problema precisa mostrar-se disponível para ouvi-lo.  Nunca se deve aconselhá-lo a revidar a agressão; mas, sim, esclarecer que ele não é culpado pelo que está acontecendo, pois é uma questão de respeito às diferenças individuais que se aprende em família.

LIMITES, A PALMADA ENSINA?


          Antigamente, ninguém sequer discutia o assunto: criança não sabia e, portanto, precisava aprender; os adultos deviam ensinar, inclusive podiam castigar.  Com as mudanças do séc. XX as pessoas foram aprendendo a respeitar e principalmente a entender as crianças. Muita coisa melhorou no relacionamento entre pais e filhos.  Entretanto essa nova forma de disciplinar é muito mais difícil e cansativa.  Negar parece um crime, um modelo antiquado de educar.   
É necessário que a criança aprenda que poderá fazer a maioria das coisas que deseja, mas nem tudo e nem sempre, mesmo que dê muita vontade.  Ensinar a tolerar pequenas frustrações no presente para que, no futuro, os problemas possam ser superados com equilíbrio e maturidade. (a criança que hoje aprendeu a esperar sua vez de ser servida à mesa, amanhã não considerará um insulto pessoal esperar a vez numa fila).  Desenvolver a capacidade de adiar satisfação (Se não conseguir emprego hoje, continuará a lutar sem desistir – ou agirá de forma insensata e desequilibrada, partindo para a marginalidade, álcool, depressão, etc.  
Evitar que o filho cresça achando que todos no mundo têm de satisfazer seus mínimos desejos e, se tal não ocorrer, o qual sempre é o mais provável, não conseguirá lidar bem com a menor contrariedade, tornando-se um frustrado ou pior, desequilibrado emocionalmente.  Diferenciar o que é uma necessidade importante, e o que é um desejo (prazer), e aí dizer “sim” quando for possível, e “não” sempre que necessário.  Lembrando que elogiar tem muito mais efeito do que “comprar” os filhos.
Dar o exemplo.  Quem quer filhos que respeitem a lei e os homens, tem de viver seu dia-a-dia dentro desses mesmos princípios, ainda que a sociedade não tenha apenas indivíduos que agem dessa forma.  Filhos observam e imitam os pais.
A palmada ensina sim, mas é a temer o maior, o mais forte, que o comportamento agressivo é válido para resolver os problemas, que a força bruta é mais importante que o diálogo, que os pais não são confiáveis, inclusive aprender a mentir para não serem punidos, criando uma distância física e emocional deles.
         Conforme o filósofo Aristóteles: “A justiça está no meio – termo”. Também não trocar seu papel pelo de “amigos”.  Pais têm que ser pais, mantendo características que identifiquem uma identidade protetora, firme, confiável; com um papel específico na vida e na estruturação da personalidade dos filhos. O amigo tem outro nível de importância, o amigo procura-se, até troca-se, mas pai e mãe é referência para sempre.

DEU PRA TI


A mística dessa expressão reside no fato de quase ninguém ao norte da divisa do Rio Grande do Sul com Santa Catarina entender o seu real significado.  Pode ser interpretado como a rejeição a certas imposições ou mesmo o adeus a certas apostas ou ilusões.  
Foi utilizada no cinema. Deu Pra Ti, Anos 70 é um clássico gaúcho vencedor dos Festivais de Cinema de Gramado e de São Paulo em 1981.  É um retrato da juventude porto-alegrense nos anos 70 – a década da infâmia.  A luta pelo fim da censura, pela igualdade de oportunidades para homens e mulheres, pela liberdade de expressão e adeus a ditadura.
É sobre Porto Alegre, o Rio Grande do Sul, nossa gente, nossa gíria.  O filme abre com a festa comemorativa do tricampeonato do Inter 1969/71.  Para quem conhece a cultura gaúcha sabe que a última guerra não será entre o céu e o inferno, mas entre gremistas e colorados.
             Foram 150 sessões com o filme original, rodado em super – 8, colado com durex, sem cópias.  Depois disso, vários “Deu pra ti” apareceram. A linguagem de Porto Alegre rendeu o "Dicionário  de Porto-Alegrês" de autoria de Luis Augusto Fischer (1999), afinal feliz daquele que consegue rir de si mesmo. 
Rir para dar uma pausa na dura realidade, da mesma forma que o gaúcho comemora o mês de setembro, do orgulho gaúcho, quando cidade e interior se unem num otimismo generalizado, em que a máquina estatal tenta esconder os problemas sociais e elevar o moral da população com histórias enfeitadas de um gaúcho que gerou barbárie e destruição, tendo como cenário o melhor estado brasileiro. 
Talvez os anos 70 não tenham terminado em 1979, mas um pouco depois, com a luta pela abertura política, pelas "Diretas Já" em 1984, com o amadurecimento da produção cultural.  Acabaram os tempos de manipulação absoluta.  O conhecimento está ao alcance de todos, sendo, portanto instrumento privilegiado no combate da hipocrisia. 
É preciso muito mais que prestígio para convencer as pessoas, até mesmo para distraí-las.   É um erro acreditar que problemas sociais não afetam a todos, Bronfenbrernner confirma: “Qualquer coisa que vá afetar o mundo vai afetar a mim”. 

PREVENÇÃO DO SUICÍDIO

          
          Em março de 2006 o CVV – Centro de Valorização da Vida completou 44 anos de atividade e de reconhecimento do Ministério da Saúde pelo trabalho de prevenção ao suicídio que realiza em seus 57 postos espalhados pelo Brasil, atendendo a uma média de um milhão de ligações telefônicas por ano, através dos 2500 voluntários que trabalham gratuitamente oferecendo apoio emocional.
          A pessoa que pensa em suicídio é uma pessoa solitária.  Pode não estar só, mas sente-se como se estivesse. Tenta comunicar-se, mas ninguém se dispõe a ouvi-la sem críticas ou julgamentos, e principalmente com sincero interesse. 
          Foi com esse objetivo que surgiu o CVV, uma entidade sem fins lucrativos que escuta as pessoas diariamente por telefone 24h por dia, ou pessoalmente em horário comercial.  O que sustenta o atendimento ininterrupto são os voluntários que depois de participarem de um curso preparatório, se revezam em plantões de quatro horas e meia, o que garante que o posto esteja sempre disponível para quem precisa desabafar: com aceitação, respeito e sigilo (quem fala não precisa se identificar). No RS há postos em Porto Alegre, Novo Hamburgo, Santa Cruz do Sul, Palmeira das Missões, Chapada, Pelotas, e pela internet: www.cvv.com.br
          Hoje Ter é o que expressa o Ser, então quem não pode Ter, não é nada aos olhos dos outros. O sujeito desgraçado, isto é, sem sorte, sofre mais o aprisionamento das suas emoções por sentir-se invisível socialmente. 
Parece que ficou fora de moda - Ser Humano: sentir dor, solidão, chorar, ter alguém em quem realmente se possa confiar, gratuitamente, sem ter que dar nada em troca. Complicado o indivíduo ser indivíduo, ser aceito do jeito que é.  Inclusive porque não há disponibilidade de diálogo, talvez pela dificuldade em se lidar com as diferenças, estilos de vida, preocupações de cada pessoa; e ainda sempre tem algo mais importante disputando atenção: o trabalho, a televisão, o celular ou o computador.  Na rua a situação ainda é mais grave, o individual desaparece na multidão, é mais um numa fila, numa sala, num ônibus lotado. No trabalho a situação coletiva e estressante de competitividade oprime, e a conseqüência é que se faz colegas, não amigos. 
          Prevenir-se do risco de pensar em suicídio é ter condições para lidar com as dificuldades, ter motivos para estar contente, com saúde física e emocional, vivendo com dignidade, amor, respeito, educação, trabalho, reconhecimento, esperança, boa alimentação, moradia, lazer e essencialmente de Amigos para compartilhar a vida. 

OS PECADOS CAPITAIS


Conhecer os pecados capitais é entrar em contato com nossos instintos mais primitivos, o lado obscuro que todos temos, a “sombra”, que se refere Jung, onde moram todas as coisas que nos desagradam em nós.  O ser humano procura compensar, por meio de vícios, a falta de amor próprio e a necessidade inconsciente de fugir dos próprios sentimentos. 
Dentre os sete pecados originais, quatro são cometidos contra o espírito – ira, avareza, inveja e orgulho.  Prejudicam tanto quem o comete quanto a quem foram dirigidos.  A IRAÉ a perda do controle mediante emoção destrutiva, fazendo a pessoa agredir a todos, quando na verdade está agredindo a si própria.  É preciso identificar a emoção que foi mobilizada e controlar a agressividade através da razão.  A AVAREZA – Pode ser definida como o apego excessivo ao dinheiro.  O avaro é quem mobiliza todo o seu amor nos bens materiais.  O “ser” precisa prevalecer ao “ter”.  A INVEJA – É um complexo de inferioridade originado pelo fato de alguém não ter aquilo que gostaria de ter.  O invejoso é temido porque se vê nele permanente potencial para caluniar os outros.  Santo Tomás de Aquino apontou a fofoca como filha da inveja.  A SOBERBA, também conhecida como orgulho, arrogância e vaidade – Manifestação de desprezo ao próximo e desejo de se fazer superior.  Seu antídoto é a generosidade.
Os três outros são pecados cometidos contra o corpo.  Ofendem diretamente quem os comete.  São a preguiça, a gula e a luxúria.  A PREGUIÇA – Preguiçoso é aquele que pode fazer algo para o benefício coletivo, contudo quer mais é saber do bem estar próprio.  Também pode ser a falta de confiança em si mesmo que o acomode.  A GULA – Na busca desenfreada pelo alimento ou bebida, o individuo procura preencher seus vazios, frustrações e carências.  A LUXÚRIA – É uma sede de satisfazer prazeres.  E o prazer aqui é sinal de quanto mais consumo supérfluo mais felicidade.  Representa uma fuga da intimidade e do compromisso.  Pode ser transformada se houver a possibilidade de troca afetiva, valorizando a cumplicidade, que não pode ser desenvolvida em relações rápidas e superficiais.
Conhecer-se é também perceber as faltas cometidas para que elas não nos dominem.  Os sentimentos envolvidos nos Pecados Capitais por si só não são negativos.  O negativo é alimentá-los, ensiná-los às crianças e agir sob o efeito deles sem tentar novas alternativas de comportamento, minando com isso o crescimento e o fortalecimento de novas competências nos relacionamentos.

A NOVA MÃE

Antigamente era fácil visualizar a família: pai, mãe e filhos. A mãe ficava em casa cuidando dos filhos e o pai trabalhava fora para sustentar o lar. Hoje há um novo conceito de família se materializando, e vários fatores explicam essa mudança.
Há 50 anos, com a chegada da pílula anticoncepcional, a mulher pode planejar melhor a vida e a chegada dos filhos, assim toda a dinâmica familiar mudou.  Depois, conquistou o direito de descasar: a cada quatro casamentos, um termina em divórcio no Brasil. Além disso, o sexo feminino é um dos maiores responsáveis pelo sustento da casa, como indica levantamento do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), que aponta aumento no número de mulheres chefes de família: 76% das mulheres trabalham fora; a taxa de fecundidade que era em média de 5 está em torno de 1,8 filho por mulher; a faixa etária dos 25 a 35 anos é a que tem mais filhos; 56% das mulheres são chefes da casa. Sendo que desses lares, 52,9% são do tipo monoparental, ou seja, há somente mãe e filho(s).
A nova mãe cuida de si mesmo, isto é, estuda, trabalha, se diverte, divide as contas com o companheiro, retarda a concepção até se estabelecer profissionalmente ou simplesmente opta por não ser mãe.
A família que essa mãe contemporânea está inserida envolve agora filhos e parentes de outros casamentos, ex-maridos, que ampliaram o conceito de família nuclear de antigamente que lembra um patchwork ou, para citar um termo usado pelos especialistas, família mosaico. 
Essa nova mulher se liberta da tradição que impedia seu crescimento pessoal. Junto com esse avanço vieram às crises e culpas por não darem atenção plena aos filhos numa comparação com o passado vivido pela geração de seus pais.
Criou-se para a mulher de hoje uma expectativa irreal, de somar casa, família e trabalho, sendo os dois primeiros nos moldes antigos e o trabalho como se ela não tivesse mais nada para cuidar, como se devesse trabalhar como um homem, mas viver como uma mulher antiga.  Sem uma administração eficiente, esta situação múltipla acaba por gerar conflito, desgaste e estresse.
Mas a influência psicológica e a relação com os filhos ainda é e sempre será, fator fundamental que molda o caráter dos jovens.  A mudança nas características da mãe dá uma nova cara para a sua relação com o filho.  Nota-se uma grande modificação na relação mais aberta, a educação passa a ser mais a base de conversa e não do castigo. 
A mãe (ou a mãe substituta) é aquela que empresta o que tem de melhor para que o filho aprenda a enxergar a realidade através dela, daí sua importância por representar o primeiro grande contato com o mundo real.  Há quem tenha dito – e provavelmente está correto – que temeríamos mais o nascimento que a morte, se dele tivéssemos consciência.
Uma criança precisa sentir que é objeto de prazer e de orgulho para a sua mãe, assim como ambos precisam se sentir profundamente identificados um com o outro, pois se trata de uma relação humana viva, que altera tanto a personalidade da mãe quanto do filho. 
A equipe do Espaço Dom Quixote dedica o seu trabalho como respeito e admiração à função materna, pessoa muitas vezes responsabilizada pelas más condutas, mas também parabenizada pelo bom trabalho. Obrigada, mães!


NAO À EROTIZAÇÃO E CONSUMISMO INFANTIL


NÃO À EROTIZAÇÃO E CONSUMISMO INFANTIL

“Art. 18. É dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor.” Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei Federal nº 8069, de 13/07/1990 – 20 anos do ECA)

É preocupante o índice de negligência que as crianças brasileiras vêm sofrendo com a influência da mídia, especialmente a música de má qualidade feita nos últimos vinte anos.  Como no caso do “pancadão rebolation”, elas contatam prematuramente com a sensualidade antes mesmo de aprenderem a ler, o que é um erro muito mais significativo do que parece.
Foi pensando numa forma de acabar com isso que surgiu a campanha “DIGA NÃO À EROTIZAÇÃO INFANTIL”.  A idéia é usar a internet para uma causa nobre, defender a importância da música na formação do caráter e da personalidade da criança bem como os perigos da erotização precoce.  
O desafio é enorme por abranger os interesses lucrativos de todos os meios de comunicação, no qual os pequenos são convertidos em consumidores mirins, porque foi constatado que capturados desde muito jovens tendem a ser mais fiéis a marcas, modas e ao próprio vício consumista que lhe é imposto.
Ou seja, a questão toma proporções de violência, embora não haja interesse em responsabilizar os culpados.  Inclusive já foi comprovado que crianças que aprendem a gastar e agir de forma inconsequente desenvolvem princípios morais distorcidos, tornando-se um problema de ordem ética, econômica e social.
Pode-se evitar isso, se efetivamente a infância for preservada em sua essência como o tempo absolutamente necessário para a formação da cidadania. Indivíduos conscientes e responsáveis são a base de uma sociedade mais justa e fraterna, que tenham a qualidade de vida como uma realidade a ser alcançada.
Implica também em selecionar os canais de informação e entretenimento para aqueles que ainda não dispõem de discernimento para fazê-lo.  Pois há um tipo de música que realmente valoriza a riqueza da infância, aperfeiçoa a sensibilidade, o humor, faz emergir a criatividade, desinibe, autoriza a expressividade do corpo e da alma revelando as habilidades e dificuldades da criança.
        Aliás, a mídia foi a primeira a reconhecer o poder da música, que o som é capaz de promover estímulos, alcançar pontos onde a linguagem verbal por vezes não consegue chegar, que aprimora a habilidade motora, o controle dos músculos, que o ritmo tem um papel importante na formação e equilíbrio do sistema nervoso, favorecendo a descarga emocional e aliviando as tensões, porém tudo isto vem sendo realizado de modo absolutamente irresponsável.
       Sem qualquer preocupação com o significado do movimento nas coreografias, a mensagem que é transmitida nas letras, nem os sentimentos que são evocados e que na maioria das vezes a criança não sabe como lidar.   Porque esta é a função dos adultos, sejam pais ou psicomotricistas, de oferecer atividades que estimulem a consciência corporal para a expressividade de um corpo que pensa, se movimenta e sente como uma pessoa que está descobrindo as suas possibilidades no mundo.  Sendo assim, então porque não lhe apresentar o melhor?

14/07/1789. Dia da queda da Bastilha. Dia da Liberdade de Pensamento.


JÁ SEI NAMORAR?


“Eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo, todo mundo é meu também!” (Tribalistas, 2003)

De duas décadas para cá, ficou estabelecido o FICAR entre os jovens. O que era um comportamento cultural masculino, nesta época de profunda globalização passou a ser adotado também pelo feminino como uma bandeira de igualdade. Portanto meninos e meninas ‘ficam’.  Quem não ‘fica’ é visto como esquisito, com algum tipo de conflito na sexualidade e sofre exclusão.
A mídia é grande responsável por isso, ela que propaga modismos explorando a fabricação de ‘pequenos adultos’ com idéias vagas de liberdade.  Faz dos adolescentes vítimas perfeitas dessa crescente mania de valorizar a outra pessoa enquanto ela puder proporcionar algo. No momento em que isso não ocorrer, desinveste-se a fim de evitar a frustração.
No ‘ficar’ não existe o fim do relacionamento porque este não existe como um compromisso entre os parceiros. É o instinto que comanda, não a razão. Da valorização do "eu" há o descuido do "tu" e, dificilmente um relacionamento se consolida, pois não há o desprendimento necessário.
Antes de qualquer coisa está o desejo individual, sem abdicar da independência e autonomia para não se fragilizar quando o outro for embora. Ou seja, a autosuficiência é um mecanismo de defesa para evitar que se sofra. Para não sofrer não se ama, se amar deixa de ‘ficar’ e desdobra no temido namoro.
 ‘Ficar’ pode durar uma noite, uma semana, um mês; pode ser com uma pessoa, duas, dez; o princípio é aceitar que ninguém é de ninguém, vale tudo o que for permitido, sem nenhum tipo de obrigação.  Os papéis continuam os mesmos: a menina é que estabelece o limite da intimidade que vai desde um beijo ao sexo propriamente dito, o menino é aquele que está sempre disposto a tudo. Sem esquecer os casais homossexuais, muito mais expostos e desinibidos ultimamente. {o tema merece um texto à parte}
Apesar dos adolescentes de hoje serem muito mais informados, estão presos.  A adolescente tenta expressar toda a competência do prazer de decidir o que fazer com sua vida, corpo e sexualidade, contudo não tem sabido como se utilizar desta liberdade. A menina caiu na mesma armadilha medíocre que sempre foi imposta ao menino e ambos estão perdidos.  Elas incorporaram o modelo masculino que inibe os meninos que não aceitam em muitas ocasiões lidar com esta nova postura feminina, acabam usando-as e desrespeitando-as.
Essa novidade até pode ser uma evolução e uma nova maneira de expressar a sexualidade, conhecer pessoas, testar os próprios sentimentos, mas não tem contribuído muito para a sadia afetividade.
Quem pratica o ‘ficar’ com intensidade, por mais parceiros que tenham sempre estará só. O ‘ficar’ não estabelece vínculo, a única coisa que nos dá segurança, ajuda no crescimento e desenvolvimento das competências humanas.
O próprio comportamento impulsivo acaba expondo o indivíduo a frequentes frustrações, pois tudo passa a ser descartável quando o consumo passa a reger a forma de comunicação. Há sempre uma descrença acerca das expectativas futuras, em ideais ou perspectivas.
A adolescência é uma época em que a insegurança se faz presente de forma marcante, e eles buscam experimentar para não se frustrar facilmente, querem transgredir limites, inovar, buscar sua identidade, mas precisam que alguém os ajude a descobrir o que o Cazuza só descobriu depois que contraiu o vírus HIV: “(...) viver a liberdade, amar de verdade, só se for a dois.”  


PATERNIDADE NA ADOLESCÊNCIA


    Antigamente quando se falava em gravidez na adolescência, as preocupações estavam muito voltadas para a questão da maternidade. Hoje, se reconhece que as dificuldades não são vividas somente pelas meninas, mas também pelos meninos, que além de se verem diante das questões específicas da adolescência, se deparam com a paternidade, situação complexa e individual.
Biologicamente falando, o adolescente já produz espermatozóides, portanto tem as condições físicas para ser pai.  Contudo, no que diz respeito ao aspecto psicológico o adolescente se encontra mergulhado em si mesmo, na construção de sua identidade, com seus dramas existenciais.  Então como ele poderia oferecer suporte emocional, presença paterna a um filho que também necessita se estruturar e, portanto, precisa de cuidado?
Ser pai não é apenas ser uma pessoa do sexo masculino, sobretudo é alguém com um lugar definido na família, principalmente na vida do filho, na construção da sua personalidade, formação da identidade sexual e emocional.  Inconscientemente, o pai representa disciplina e precisa exercer o difícil equilíbrio entre permitir e proibir para mostrar determinação quando necessário. 
Isso deve acontecer a despeito da idade, morando na mesma casa ou não, o importante é que qualifique o relacionamento.  Pai e mãe têm funções emocionais distintas na família.  A paternidade é exercida por um homem com a função de lei, proteção, auxílio e representação social: jeito de ser, pensar, sentir, desejar, particularidades biológicas e culturais masculinas. 
        Significa que pai é tudo o que a mãe não pode ser.  Na ausência de um homem que o substitua o lugar fica vazio.  As crianças criadas sem pai, ou crescido junto a um pai psicologicamente ausente ou muito fraco, apresentam transtornos psíquicos, emocionais ou orgânicos.  Essa carência de contato com o pai pode ser uma das raízes do sentimento de rejeição no filho, podendo gerar quando adulto, uma busca de substituto paterno.
       Está comprovado que a falta de normas e a consequente falta de limites, gera uma imagem ruim do pai, e uma sensação de abandono e solidão na criança. É como se o filho quando adulto, continuasse procurando dentro de si os limites que o pai não soube colocar. 
      Independente da idade, a paternidade efetiva não é fácil de assumir.  O pai precisa resolver suas questões enquanto filho para então se tornar pai e não vir a se confundir com o filho; precisa separar o que é seu ou será eternamente filho e amigo dos seus filhos, abrindo mão de vivenciar sua identidade paterna.
Tal dificuldade não é exclusiva dos adolescentes, nem representa necessariamente uma experiência negativa e fracassada para eles, por mais que venham a enfrentar sofrimento consequente do despreparo e precisem arcar com o ônus de ter transgredido e apressado a ordem natural das coisas. 
Apesar de tudo, a paternidade na adolescência não é uma coisa intransponível, nem seu êxito impossível, desde que possam receber apoio, confiança e amor dos familiares e que assim o melhor aconteça.