Espindolele
terça-feira, 3 de agosto de 2010
sábado, 31 de julho de 2010
'NÃO MUDE!'
É muito doloroso mudar. Primeiro porque na metamorfose, uma parte essencial do ser deixa de existir; um modo de ser quem se é precisa entrar em colapso para dar oportunidade a um novo indivíduo se manifestar. Segundo porque se unem contra a renovação aqueles que, de uma forma ou de outra, o conhecem, testemunham sua biografia e zelam para que ela seja preservada, isto significa enfrentar a resistência de todo mundo que o cerca.
O desafio inicia com a exigência de suportar a angústia que a proposta nova gera. O sentimento de desamparo, o medo do desconhecido, a necessidade de sair da zona de conforto, encarando os próprios temores tende a ser desagradável. Não é qualquer pessoa que se dispõe e aguenta um esforço deste tamanho, porém indispensável para a superação de si mesmo.
Engana-se quem imagina que contará com o apoio alheio ao projeto de transformar-se, mesmo que a mudança seja um desejo coletivo. Equivoca-se o sonhador ingênuo que espera estímulo à mudança por parte de todos, por mais absurdo que pareça. Há uma conspiração pela fixação de identidades e pelo congelamento de características; participa-se, inclusive contribui-se para a blindagem que paralisa os processos históricos.
Observa-se esta contradição nos consultórios diariamente. O discurso que produz a procura por ajuda nem sempre se sustenta aos desafios que se sucedem. Talvez a falta de informação induza a ilusão de que apenas a palavra de um profissional execute toda a tarefa pelo paciente. Então quando ele percebe que não pode ser assim, que precisa aprender a construir escolhas, duvida de sua verdadeira capacidade.
Os psicólogos estão acostumados com as resistências, se prepararam para exercer suas atividades com a presença constante de forças contrárias ao seu método de trabalho. Sabem que elas vão se manifestar na relação com seus pacientes; esperam e alertam para possíveis crises deles com seus familiares e com amigos, porque a mera possibilidade de alteração de comportamento (real ou imaginária) de um dos membros da rede social o coloca em perigo, na medida em que interfere direta ou indiretamente na convivência entre eles.
Entretanto aqueles que persistem na tarefa de mudança confirmam categoricamente sua ousadia, conquistam a autonomia e descobrem seu legítimo valor, independente se o fazem com a ajuda de alguém ou não. Karen Horney afirma: “A vida em si mesma é uma excelente terapeuta”. Basta ter convicção para se entregar a um projeto no qual, muitas vezes, se é o único a acreditar.
TRATADO GERAL SOBRE A FOFOCA
No livro Tratado Geral Sobre a Fofoca, José Ângelo Gaiarsa analisa a estrutura do funcionamento social através do impacto de uma grande peste emocional, a fofoca. Aquilo que as pessoas inibidas, moralistas, reprimidas fazem contra todos os que se mexem, vivem e fazem coisas.
Têm-se vontades que os outros dizem não ter, não compreender, nem aceitar – principalmente em matéria de amor, sexo e auto-estima. Inclusive caprichos inofensivos que não são realizados porque seriam tidos como ridículos. Então são contidos. Só se mostra e realiza o que convém, é permitido e bem visto. A outra metade fica escondida, trancada. O problema é que o que é escondido não desaparece, insiste, ficando cada vez mais dolorido ocultar. “O que fazer com o porão cada vez mais cheio de coisas estranhas que continuam crescendo?” Fofoca, claro.
Os fofoqueiros são policiais do comportamento alheio. Muito conveniente. Viver vigiando a si mesmo a fim de agir bem é cansativo, exige alerta permanente. Vigiar e punir o outro é bem mais fácil. A vizinha honesta vigia a vizinha desonesta, pois assim se considera superior, virtuosa, a própria zeladora dos valores morais. Em vez de ficar policiando-se o dia todo, angustiada frente aos próprios desejos e fantasias, passa a espionar os vizinhos. Dessa forma livra-se de si mesma e carrega o título de glória.
Há duas espécies fundamentais de fofoqueiro: os orgulhosos, que desprezam a pessoa que estão criticando. Como se o ato realizado fosse uma vergonha, uma humilhação. A esta espécie de fofocador se pode perguntar: se o outro é tão desprezível, “Por que você se incomoda com ele?” A segunda classe é a dos invejosos. Ao fazer a fofoca, mostram no olhar e no rosto espanto e perplexidade. A sua crítica tem um tom indisfarçável de admiração. Estes são mais honestos, sabem fingir menos, porém a expressão dos dois diz a mesma coisa: “Como é que esse sujeito tem coragem de fazer isso?”
Entretanto só quem viveu o fato sabe como ele foi. Quem ouviu falar ou surpreendeu um pedaço da história não sabe o que aconteceu. Simplesmente imagina, supõe, adivinha, usando sua própria história emocional para completar o que não sabe construída à custa de medo e frustração particular. A quantidade de fofoca que existe no mundo e em cada pessoa é exatamente igual à quantidade de desejos humanos não realizados.
BULLYING, BRINCADEIRAS QUE MACHUCAM A ALMA
Uma criança que sofre bullying na escola tenderá a sentimentos negativos com possibilidade de tornar-se um adulto com problemas de relacionamento, tomado de um comportamento agressivo, continuar sofrendo ou começar a praticar o mesmo para tentar se defender.
Os efeitos do bullying incluem ansiedade, resistência ou mal-estar na hora de ir à escola, baixo rendimento escolar, opiniões depreciativas sobre si, roupas ou cadernos danificados, isolamento, pesadelos, pânico, agressividade, queixas orgânicas e outros.
É uma questão social e educacional de relações de poder. Interfere na autoestima, e qualquer um com características específicas (timidez, insegurança, diferenças físicas, culturais ou raciais) tornam-se alvos facilmente.
Não são poucas as vítimas do bullying que, por medo ou vergonha, sofrem em silêncio. Além de haver alguns casos com desfechos trágicos, esse tipo de prática também está preocupando por atingir faixas etárias cada vez mais baixas, como crianças dos primeiros anos da escolarização.
Trata-se de uma forma de ataque perversa que extrapola os muros da escola e pode deixar seqüelas para a vida adulta. Os autores dessa prática podem adotar comportamentos de risco, desrespeito aos professores, desinteresse pelos estudos, abuso de álcool e drogas, porte de armas, atitudes criminosas e acabar tornando-se adultos violentos.
Não existem escolas sem bullying. Reconhece-se – os alvos, os autores e as testemunhas, sendo que estas geralmente não denunciam os autores nem defendem os alvos, ficando muitas vezes do lado do autor ou neutros.
Para quem é vítima de algum desses tipos de humilhação, a saída é “se abrir”, ou seja, procurar ajuda, começando pelos próprios pais. E quem tem um filho passando por esse problema precisa mostrar-se disponível para ouvi-lo. Nunca se deve aconselhá-lo a revidar a agressão; mas, sim, esclarecer que ele não é culpado pelo que está acontecendo, pois é uma questão de respeito às diferenças individuais que se aprende em família.
LIMITES, A PALMADA ENSINA?
Antigamente, ninguém sequer discutia o assunto: criança não sabia e, portanto, precisava aprender; os adultos deviam ensinar, inclusive podiam castigar. Com as mudanças do séc. XX as pessoas foram aprendendo a respeitar e principalmente a entender as crianças. Muita coisa melhorou no relacionamento entre pais e filhos. Entretanto essa nova forma de disciplinar é muito mais difícil e cansativa. Negar parece um crime, um modelo antiquado de educar.
É necessário que a criança aprenda que poderá fazer a maioria das coisas que deseja, mas nem tudo e nem sempre, mesmo que dê muita vontade. Ensinar a tolerar pequenas frustrações no presente para que, no futuro, os problemas possam ser superados com equilíbrio e maturidade. (a criança que hoje aprendeu a esperar sua vez de ser servida à mesa, amanhã não considerará um insulto pessoal esperar a vez numa fila). Desenvolver a capacidade de adiar satisfação (Se não conseguir emprego hoje, continuará a lutar sem desistir – ou agirá de forma insensata e desequilibrada, partindo para a marginalidade, álcool, depressão, etc.
Evitar que o filho cresça achando que todos no mundo têm de satisfazer seus mínimos desejos e, se tal não ocorrer, o qual sempre é o mais provável, não conseguirá lidar bem com a menor contrariedade, tornando-se um frustrado ou pior, desequilibrado emocionalmente. Diferenciar o que é uma necessidade importante, e o que é um desejo (prazer), e aí dizer “sim” quando for possível, e “não” sempre que necessário. Lembrando que elogiar tem muito mais efeito do que “comprar” os filhos.
Dar o exemplo. Quem quer filhos que respeitem a lei e os homens, tem de viver seu dia-a-dia dentro desses mesmos princípios, ainda que a sociedade não tenha apenas indivíduos que agem dessa forma. Filhos observam e imitam os pais.
A palmada ensina sim, mas é a temer o maior, o mais forte, que o comportamento agressivo é válido para resolver os problemas, que a força bruta é mais importante que o diálogo, que os pais não são confiáveis, inclusive aprender a mentir para não serem punidos, criando uma distância física e emocional deles.
Conforme o filósofo Aristóteles: “A justiça está no meio – termo”. Também não trocar seu papel pelo de “amigos”. Pais têm que ser pais, mantendo características que identifiquem uma identidade protetora, firme, confiável; com um papel específico na vida e na estruturação da personalidade dos filhos. O amigo tem outro nível de importância, o amigo procura-se, até troca-se, mas pai e mãe é referência para sempre.
DEU PRA TI
A mística dessa expressão reside no fato de quase ninguém ao norte da divisa do Rio Grande do Sul com Santa Catarina entender o seu real significado. Pode ser interpretado como a rejeição a certas imposições ou mesmo o adeus a certas apostas ou ilusões.
Foi utilizada no cinema. Deu Pra Ti, Anos 70 é um clássico gaúcho vencedor dos Festivais de Cinema de Gramado e de São Paulo em 1981. É um retrato da juventude porto-alegrense nos anos 70 – a década da infâmia. A luta pelo fim da censura, pela igualdade de oportunidades para homens e mulheres, pela liberdade de expressão e adeus a ditadura.
É sobre Porto Alegre, o Rio Grande do Sul, nossa gente, nossa gíria. O filme abre com a festa comemorativa do tricampeonato do Inter 1969/71. Para quem conhece a cultura gaúcha sabe que a última guerra não será entre o céu e o inferno, mas entre gremistas e colorados.
Foram 150 sessões com o filme original, rodado em super – 8, colado com durex, sem cópias. Depois disso, vários “Deu pra ti” apareceram. A linguagem de Porto Alegre rendeu o "Dicionário de Porto-Alegrês" de autoria de Luis Augusto Fischer (1999), afinal feliz daquele que consegue rir de si mesmo.
Rir para dar uma pausa na dura realidade, da mesma forma que o gaúcho comemora o mês de setembro, do orgulho gaúcho, quando cidade e interior se unem num otimismo generalizado, em que a máquina estatal tenta esconder os problemas sociais e elevar o moral da população com histórias enfeitadas de um gaúcho que gerou barbárie e destruição, tendo como cenário o melhor estado brasileiro.
Talvez os anos 70 não tenham terminado em 1979, mas um pouco depois, com a luta pela abertura política, pelas "Diretas Já" em 1984, com o amadurecimento da produção cultural. Acabaram os tempos de manipulação absoluta. O conhecimento está ao alcance de todos, sendo, portanto instrumento privilegiado no combate da hipocrisia.
É preciso muito mais que prestígio para convencer as pessoas, até mesmo para distraí-las. É um erro acreditar que problemas sociais não afetam a todos, Bronfenbrernner confirma: “Qualquer coisa que vá afetar o mundo vai afetar a mim”.
PREVENÇÃO DO SUICÍDIO
Em março de 2006 o CVV – Centro de Valorização da Vida completou 44 anos de atividade e de reconhecimento do Ministério da Saúde pelo trabalho de prevenção ao suicídio que realiza em seus 57 postos espalhados pelo Brasil, atendendo a uma média de um milhão de ligações telefônicas por ano, através dos 2500 voluntários que trabalham gratuitamente oferecendo apoio emocional.
A pessoa que pensa em suicídio é uma pessoa solitária. Pode não estar só, mas sente-se como se estivesse. Tenta comunicar-se, mas ninguém se dispõe a ouvi-la sem críticas ou julgamentos, e principalmente com sincero interesse.
Foi com esse objetivo que surgiu o CVV, uma entidade sem fins lucrativos que escuta as pessoas diariamente por telefone 24h por dia, ou pessoalmente em horário comercial. O que sustenta o atendimento ininterrupto são os voluntários que depois de participarem de um curso preparatório, se revezam em plantões de quatro horas e meia, o que garante que o posto esteja sempre disponível para quem precisa desabafar: com aceitação, respeito e sigilo (quem fala não precisa se identificar). No RS há postos em Porto Alegre, Novo Hamburgo, Santa Cruz do Sul, Palmeira das Missões, Chapada, Pelotas, e pela internet: www.cvv.com.br.
Hoje Ter é o que expressa o Ser, então quem não pode Ter, não é nada aos olhos dos outros. O sujeito desgraçado, isto é, sem sorte, sofre mais o aprisionamento das suas emoções por sentir-se invisível socialmente.
Parece que ficou fora de moda - Ser Humano: sentir dor, solidão, chorar, ter alguém em quem realmente se possa confiar, gratuitamente, sem ter que dar nada em troca. Complicado o indivíduo ser indivíduo, ser aceito do jeito que é. Inclusive porque não há disponibilidade de diálogo, talvez pela dificuldade em se lidar com as diferenças, estilos de vida, preocupações de cada pessoa; e ainda sempre tem algo mais importante disputando atenção: o trabalho, a televisão, o celular ou o computador. Na rua a situação ainda é mais grave, o individual desaparece na multidão, é mais um numa fila, numa sala, num ônibus lotado. No trabalho a situação coletiva e estressante de competitividade oprime, e a conseqüência é que se faz colegas, não amigos.
Prevenir-se do risco de pensar em suicídio é ter condições para lidar com as dificuldades, ter motivos para estar contente, com saúde física e emocional, vivendo com dignidade, amor, respeito, educação, trabalho, reconhecimento, esperança, boa alimentação, moradia, lazer e essencialmente de Amigos para compartilhar a vida.
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