sábado, 31 de julho de 2010

DEU PRA TI


A mística dessa expressão reside no fato de quase ninguém ao norte da divisa do Rio Grande do Sul com Santa Catarina entender o seu real significado.  Pode ser interpretado como a rejeição a certas imposições ou mesmo o adeus a certas apostas ou ilusões.  
Foi utilizada no cinema. Deu Pra Ti, Anos 70 é um clássico gaúcho vencedor dos Festivais de Cinema de Gramado e de São Paulo em 1981.  É um retrato da juventude porto-alegrense nos anos 70 – a década da infâmia.  A luta pelo fim da censura, pela igualdade de oportunidades para homens e mulheres, pela liberdade de expressão e adeus a ditadura.
É sobre Porto Alegre, o Rio Grande do Sul, nossa gente, nossa gíria.  O filme abre com a festa comemorativa do tricampeonato do Inter 1969/71.  Para quem conhece a cultura gaúcha sabe que a última guerra não será entre o céu e o inferno, mas entre gremistas e colorados.
             Foram 150 sessões com o filme original, rodado em super – 8, colado com durex, sem cópias.  Depois disso, vários “Deu pra ti” apareceram. A linguagem de Porto Alegre rendeu o "Dicionário  de Porto-Alegrês" de autoria de Luis Augusto Fischer (1999), afinal feliz daquele que consegue rir de si mesmo. 
Rir para dar uma pausa na dura realidade, da mesma forma que o gaúcho comemora o mês de setembro, do orgulho gaúcho, quando cidade e interior se unem num otimismo generalizado, em que a máquina estatal tenta esconder os problemas sociais e elevar o moral da população com histórias enfeitadas de um gaúcho que gerou barbárie e destruição, tendo como cenário o melhor estado brasileiro. 
Talvez os anos 70 não tenham terminado em 1979, mas um pouco depois, com a luta pela abertura política, pelas "Diretas Já" em 1984, com o amadurecimento da produção cultural.  Acabaram os tempos de manipulação absoluta.  O conhecimento está ao alcance de todos, sendo, portanto instrumento privilegiado no combate da hipocrisia. 
É preciso muito mais que prestígio para convencer as pessoas, até mesmo para distraí-las.   É um erro acreditar que problemas sociais não afetam a todos, Bronfenbrernner confirma: “Qualquer coisa que vá afetar o mundo vai afetar a mim”. 

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